JARDIM DA BOA VISTA

 

Texto: Isabel Duprat

Fotos: Leonardo Finotti

Manoel Leão

 

O Parque Nacional da Tijuca e as belas miradas para a praia da barra e para montanhas de pedra são os protagonistas deste projeto.

 

Havia duas construções no terreno, a casa principal apertada na encosta e que seria demolida para dar lugar a nova construção e um anexo que seria reformado.

 

O projeto de paisagismo teria que dar unidade ao conjunto de duas arquiteturas distintas. Um dos grandes enigmas do paisagismo é como lidar com isto posto, com delicadeza.

 

Foi uma grata experiência conhecer Tom Kundig, que projeta casas /cabanas feitas para viver com muito conforto com o essencial e, sobretudo, para vivenciar a natureza do entorno, que muito mais que a arquitetura, é eleita a rainha da festa. Imagino que ele pense assim, é o que o seu trabalho comunica.

 

As possibilidades de implantação da cabana no platô existente da antiga casa, confinado entre a mata da encosta e o desnível do acesso de automóveis existente, não eram muitas e por isso mesmo teria que ser bem precisa a angulação da locação da casa para usufruir das duas vistas importantes: mar e montanha.

 

Juntos em visita ao local acertamos um meio termo bastante bom das opções que tínhamos. A casa se soltou da encosta contida por muros de pedra que foram preservados e se abriu para a paisagem.

 

Eu não queria que as duas construções fossem vistas ao mesmo tempo. Seria um excesso considerando a área do platô. Fiz então que a mata escorregasse entre elas, plantando árvores nativas que amalgamassem com a mata existente, como sapucaia, jacarandá, caroba, ipê-roxo, aldrago, cainito, etc.

A rampa para automóveis foi desenhada com um piso de filetes de basalto que se encontra com o piso de cacos do mesmo basalto com juntas de grama que faz a ligação das duas casas e de todos os acessos de pedestres.  No encontro dos pisos foi feita uma alteração de nível de mais de 50 cm acima

para suavizar a diferença de cotas das duas casas, o que proporcionou um importante conforto visual ao dar maior integração entre os dois platôs.

 

Quis fazer singelo o jardim para receber a casa, como deveria ser, (mostrar a foto das sementes no desenho – foto está no making of do projeto) e desenhei curvas suaves com capins de cores diferentes, cujo desenho veio de umas sementes que coleciono e joguei sobre a mesa. Esses capins se esparramaram para o outro lado que continha um pau-ferro monumental pontuando um gramado que quis manter como tal.  Penso que um gramado, para existir, tem que ter uma escala adequada ao lugar. 

 

Atrás da casa, aproveitei os muros de pedra e os vazios protegidos pela sombra para colecionar plantas subindo e caindo, se acomodando entre as frestas e brotando em pontos coloridos, como fazem as begônias, ruellias, medinillas, acanthus, ou fazendo verdes e texturas como as samambaias, filodendros e aglaonemas.

A decisão da localização da piscina, que tinha o propósito primeiro de servir à natação, foi objeto de inúmeros estudos, sobretudo em função dos intrincados desníveis por onde se acomodava a piscina anterior. Existia ali uma grande área a ser aproveitada como jardim, mas não na configuração existente. Conquistar toda esta área do terreno e integrá-la ao uso diário da casa não era trivial, e este foi um dos grandes tentos do projeto de paisagismo.

 

A princípio, a piscina existente de forma orgânica facetada à anos 60 parecia interessante, mas havia algo errado com as proporções. Como adaptar isto a uma piscina com as dimensões do nadar não estava fazendo sentido, assim que esgotadas as tentativas, tomei a liberdade avalizada pelo cliente de avançar em novas possibilidades. 

 

A piscina tomou então sua autonomia e se estendeu sobre o limite do gramado, fazendo a linha do horizonte, aproveitando a contenção já existente de um muro de pedra. Os antigos níveis foram alterados de forma à circulação ficar mais agradável e os espaços mais integrados, inclusive visualmente. Novos muros de 1,50 m de altura contiveram o deck da piscina e pequenos pátios jardins acessados por escadas suaves os acomodaram entre contenções de concreto. Elegi o concreto como material tanto da caixa da piscina como dos muros para trazer alguma referência da arquitetura de Kundig para esta área do jardim que estava mais afastada da casa principal, mas de onde era visível. As escadas, deck e circulação receberam o basalto que tão bem mimetiza com o concreto.

A linha d'água no plano do gramado pode ser observada da casa, ao mesmo tempo que do anexo.

 

Árvores e arbustos de flor, capins, filodendros, alocasia, pandanus, norantea, foram se esparrando aqui e ali, onde pudessem se esparramar e amenizar visualmente os desníveis. 

Tratei as outras áreas do terreno de forma a recompor a vegetação arbórea, bastante falha em alguns setores, e desenhei caminhos com pedras da antiga construção e bancos com as lajes maiores para que estas áreas pudessem ser percorridas e usufruídas. 

Desenhei no gramado uma pequena pérgola metálica com a estrutura mais simples possível, para no futuro servir ao espetáculo da floração azul turquesa da trepadeira jade.

Rio de Janeiro