CASA NA AREIA

 

Texto: Isabel Duprat

Fotos: Fernando Guerra

O terreno já tinha toda beleza do mundo. Como fazer deste jardim um lugar integrado a tanta beleza natural? Há situações em que penso que o projeto deve desaparecer e que, por mais difícil que tenha sido o processo, deve resultar tão mimetizado com o lugar que, por isto, torna-se imperceptível. Não foi o que ocorreu com este jardim. Por alguma razão eu quis fazer o desenho e o pensamento mostrarem-se muito claros, ainda que muito delicados, e por isto em harmonia com a paisagem. As razões para estas escolhas em cada projeto são subjetivas e me pergunto como estas decisões acontecem. Como não sei explicá-las, penso que isto não importa.

 

A certeza era que seria um jardim na areia, muita areia abrindo passagem entre grandes canteiros baixos formando blocos de cor, como um grande mosaico, massas de luz e sombra se entrelaçando como ondas que vislumbram o mar entre pequenas aberturas.

 

A casa projetada por Marcio Kogan - Studio MK27, caixas de concreto justapostas sob uma grande pérgola esparramada, convive com as belas amescas existentes que foram cuidadosamente preservadas na locação da casa que fizemos em conjunto. Todos os espaços se voltam ao nordeste frente a uma das mais bonitas de nossas praias, para um belo pedaço de restinga ponteado com árvores nativas às quais incorporei outras mais em pontos onde a sombra seria benvinda.  Antes que a obra se iniciasse, para o acesso de maquinários, protegemos esta faixa de 4 mil metros quadrados, onde plantamos  90 árvores, algumas de bom porte, como semaneia (Samanea saman), jacarandá-da-baía (Dalbergia nigra), pau brasil (Paubrasilia echinata), Pithecellobium, cainito (Chrysophyllum cainito), monguba (Pachira aquatica), goiabão (Pouteria pachycarpa), mangueira, algodão da praia (Hibiscus tiliaceus), fruta pão (Artocarpus altilis), Clusias grandiflora, jambo (Syzygium jambos) para deixar o chão cor de rosa e outras tantas árvores, muitos coqueiros junto à futura piscina, que ficou à beira de um preguiçoso cajueiro, caxandós (Allagoptera Arenaria) e muitos uricuris (Syagrus coronata) existentes que foram reunidos, adensados e aumentados. Estas árvores foram cuidadas durante toda a construção da casa e naturalmente se incorporando ao lugar. Na fase seguinte, criei sob as árvores grandes canteiros de Sansevierias de diferentes espécies, alturas, formas, matizes e tons de verdes e amarelos, bromélias, ananás, e cactáceas com a resistência necessária para viver a beira mar e ao sol, se contrapondo a philodendrons à sombra mais protegidos. Junto às divisas, alpinias, heliconias, bastão do imperador (Etlingera elatior), Megaskepasmas oferecendo suas flores exageradamente tropicais junto a grupos de pitangas (Eugenia uniflora), romãs (Punica granatum), cabeludinhas (Plinia glomerata), grumixamas (Eugenia brasiliensis) e uva-de-praia (Coccoloba uvifera).

Frente à estrada de terra, dissimulando a cerca, fiz uma continuação da mata da outra margem, com pitombas (Talisia esculenta), Cassias, guanadi (Calophyllum brasiliense), (ver as outras). O jardim entre a cerca e a casa, com uma largura bem menor que o jardim frente ao mar, oferecendo uma sombra que já estava lá, e por ser uma área mais protegida do vento do mar, adquiriu aqui características bem distintas. Abusei das palmeiras de troncos luminosos, das samambaias, Calatheas, Philodendrons, recebendo com luxúria a chegada à casa, e Musas, Strelitzia augusta, palmeiras entouceiradas, fazendo o fechamento da cerca frontal. Para os caminhos, elegi o arenito branco para mimetizar com a cor e textura da areia e fazer também degraus de acesso à casa e o deck da piscina.

Ao passar pela pérgola deixando para trás este jardim mais fechado, com meandros a decifrar, se tem a surpresa de chegar a um jardim inteiramente descortinado, que se percebe por inteiro, como que um preparo para receber o mar aberto. Aos poucos vai se percebendo as suas nuances, sem pressa.

 

Tudo isto feito me recordo da primeira reunião com o cliente que se tornou um parceiro adorável de trabalho, quando ele me mostrou um vídeo de um jardim que havia feito em sua casa na Provence que acabara de vender. O jardim era lindo, impecável. Estava claro que a expectativa com este projeto na praia seria grande.

 

O processo foi intenso e gratificante. Muitas idas ao terreno, sim, muito esforço físico também, trazendo  uma  compreensão  cada vez mais afinada do lugar,  muitas trocas de ideias com o cliente que já quase habitava ali e à medida que eu desenhava os canteiros, com a vivência do espaço que ele estava experimentando, senti vontade de diminuir as espécies de plantas previstas para os grandes canteiros, exagerando nas Sansevierias e experimentando a cadência forte, gráfica e luminosa destas plantas, espalhando-as com vontade pela areia. A areia foi ganhando mais espaço se juntando com a areia da praia e o azul luminoso do mar aparecendo um pouco mais.

 

Foi um trabalho feliz!