JARDIM DA CASA ROBERTO MARINHO

Texto: Isabel Duprat

Fotos: Ismar de Almeida e Manoel Leão

Ir à casa cor-de-rosa do Cosme Velho era um evento especial. Ser chamada por dr. Roberto, como nos dirigíamos a ele, era um enorme privilégio. Nesta condição, no ano de 1995, tive meu primeiro contato com Roberto Marinho, que veio a ser o início de uma deliciosa e respeitosa trajetória de muitos trabalhos. No meu primeiro dia de visita à casa, ele me dirigiu à beira do rio Carioca, que passava três metros abaixo do nível do piso próximo à sala de jantar e, se debruçando na balaustrada, me disse: “minha menina, o rio passa lá embaixo. Gostaria que passasse aqui em cima para eu poder desfrutá-lo. Tenha uma boa ideia e lembre-se: eu não tenho muito tempo.”

 

Assim, simples e direto, me entregou um grande e intrigante projeto. Não havia o que perguntar, para bom entendedor era só começar a trabalhar. Ao encomendar um trabalho era sempre bastante sucinto, sem meias palavras, embora adorasse uma boa conversa e, principalmente, usufruir a vida. Muitas coisas que levo comigo, sobretudo o prazer da liberdade de criar, são preciosidades desses momentos de convívio. Ele parecia sempre estar torcendo por você. Ele dizia que eu deveria arriscar sempre e que, se não ficasse bom, poderia fazer de novo. Que maravilha!

 

O rio Carioca trazia, àquela época, uma grande quantidade de sujeira do morro acima, o que fazia com que um cheiro insuportável cortasse o jardim. Uma tentativa de tratar a água não foi adiante, então optou-se por um desvio do rio dentro da propriedade, numa grande galeria nos limites do terreno com uma secção de 3,5 por 3,5 metros aproximadamente. Minha participação se iniciou quando o projeto de desvio foi aprovado. No leito original seria injetada água de poço artesiano bombeada em circuito fechado. Coube a mim  fazer um novo desenho do curso do rio junto à casa, definindo seus futuros níveis e criando o lago de carpas que lá está. Também seria feita a reforma da piscina e criado um novo acesso através de uma ponte de madeira - que à pedido do cliente foi depois substituída por uma outra, igual à já existente no acesso abaixo da casa -, além de uma nova escada, o jardim da sala de almoço e o projeto da vegetação da área total do terreno, evidentemente mantendo ao meu critério o que achasse importante manter. Sendo uma obra extremamente complicada, geraria grande impacto no jardim existente. Não havia como ser diferente.

Embora nos anos cinquenta Burle Marx tenha feito um projeto para este jardim, muito havia sido alterado ao longo dos anos. Deve-se ter em mente também que o projeto inicial de Burle Marx foi uma intervenção menor, tendo em vista que a casa já existia, a circulação já estava definida, os planos do jardim, etc. E a documentação existente, tanto fotográfica quanto de desenhos, era muito escassa. A obra em curso seria gigantesca e, por esta razão, não havia no meu projeto, e tampouco por parte do cliente, nenhuma intenção de restaurá-lo. Mantive as grandes árvores que habitavam o terreno desde antes do projeto de Burle Marx. O lago foi mantido como habitat dos flamingos, um pandanus, algumas palmeiras, como duas pytcospermas, uma bela francinetia, um pau-mulato, zamias  e alguns arbustos. 

Este não foi um projeto de restauro, e sim um novo projeto, uma grande intervenção em função do desvio do rio que afetou grande parte do terreno. Foi uma atitude completamente diferente da que tive em relação ao jardim do hoje IMS – Instituto Moreira Salles, quando coincidentemente no ano de 1995 fui chamada pelo Embaixador Walter Moreira Salles para fazer um novo jardim na sua antiga residência que veio a ser transformada em instituto cultural. Nesse caso, sugeri que fosse feito um restauro e não um novo jardim, pelas condições em que se encontrava, porque, apesar da falta de manutenção, não seria afetado por grandes obras. No IMS temos um projeto de Burle Marx feito junto com o projeto de arquitetura, onde de fato sua contribuição foi importante e efetiva, como se pode observar no espelho d'água com o painel de azulejo, na piscina, no jardim geométrico, em alguns pisos externos, etc. Fiz um novo projeto nas áreas novas, não contempladas anteriormente pelo projeto original, e algumas intervenções necessárias ao projeto do Burle Marx.

 

Naquela época não tínhamos o 3D, quase retrato da vida futura, e nem todas as ferramentas de que podemos dispor hoje para que o cliente possa visualizar o que está sendo projetado. Os desenhos eram feitos a lápis em papel manteiga, com perspectivas, ou em nanquim no papel vegetal, e sempre contando com a confiança que o cliente depositava no profissional que havia contratado. Não se faziam tantas reuniões, discussões e revisões. 

 

Foram anos de muito trabalho. A ponte aérea virou rotina com bate e volta São Paulo-Rio de Janeiro no mínimo duas vezes por semana, indo e vindo para acompanhar e viabilizar a obra. Muitas decisões eram tomadas no local, como a posição e o encaixe de cada pedra. Todas as pedras do leito do rio onde trabalhamos foram tiradas, armazenadas e recolocadas de forma a se harmonizarem com a nova situação. Um trabalho supervisionado alegremente por dr. Roberto da janela da sala íntima, e me perguntando lá de cima: “O que você acha, vai ficar bom?" "Que medo! Vai sim, dr. Roberto, tem que ficar!” Todo dia, quando voltava do jornal, passava por ali para olhar a obra, dizia que estava junto, torcendo, e assim foi até o final do trabalho, sem muitas perguntas.

 

Cachoeiras e quedas d’água realizaram a acomodação das cotas originais nos trechos anterior e subsequente onde o rio encontra o curso original, além de terem a função de enriquecer a ambiência com o movimento e o som da água. O primeiro trecho, onde já havia a grande queda d’água, foi mantido como estava e, logo ao pé da cascata, começou a intervenção que, com a água limpa, nos possibilitou a criação de pequenas lagoas com chão revestido de areia para a coleção de carpas. Neste trecho o nível do rio passa a ter aproximadamente 1,5 m de profundidade e, a partir da ponte, após mais um trecho de alteração da cota com algumas quedas d’água, a água volta ao leito original.  

As lagoas de carpas deram muita alegria ao dr. Roberto, que me contava sobre o prazer enorme que aquele lago dava a ele todos os dias, como se estivessem ali desde sempre. E ele me agradecia por poder usufruir aquele lugar. Que alegria! Afinal, não é este o propósito do nosso fazer? Criar um bom lugar que nos faça sentir bem ao perceber a natureza?

Jardineiras de pedra foram desenhadas nos muros, criando nichos para plantarmos filodendros, um lindo jasmim-manga cor de maravilha, samambaias, monsteras, bromélias e outras tantas. Dessa forma, a presença desses muros laterais ao lago foi amenizada. Uma samambaia gigante e um ipê do brejo foram plantados junto à ponte e os dois, um pelas flores amarelas com que nos brinda no fim do inverno e o outro pela opulência de suas folhas e brotos, nos encantam até hoje, cada um a seu modo. Usei e abusei do farto repertório de tons de verde, formas inquietas e movimentadas do crinum, dos filodendros, contrapondo a renda iluminada e repicada da lea coccínea. Ao fundo o bosque foi entrecortado pela marcação vertical das palmeiras macarthury e dos jerivás. O tempo foi se encarregando de dar vida própria a esse jardim, propiciando o surgimento de espécies espontâneas, criando musgo, patinando as pedras, trazendo a sombra, preenchendo os vazios, criando os fechamentos desejados, tudo através da magia da natureza que vai se amalgamando ao pensamento do projeto e começando a contar sua própria história.

Um pequeno deck foi criado para se ter a vista do rio e da cachoeira a partir do jardim da sala de almoço, onde plantamos jabuticabeiras. 

 

À medida em que toda a obra de infraestrutura ficava pronta, avançavam os trabalhos de plantio da vegetação. Todo o envoltório do jardim foi trabalhado para garantir a privacidade da propriedade junto à rua Cosme Velho com a introdução de inúmeras palmeiras e árvores, além de dracenas arbóreas. Todo o talude entre a galeria do rio e o jardim teve espécies introduzidas com este propósito e, na entrada da casa onde o rio volta para o leito original, toda a vegetação existente hoje foi plantada nessa época. Junto à piscina foram introduzidos arbustos de flor, como a megaskepasma, e reforçados alguns que por ali estavam, como as justicias.

O jardim em meio à rotatória do acesso para automóveis recebeu plantio de flores a pedido do cliente, as que lá estão.

 

E assim foram alguns anos de projeto in loco da vegetação introduzida para se perceber cada lugar, cada detalhe e todo o conjunto.

 

Três anos depois foi incorporado o terreno adjacente onde hoje se encontra a cafeteria. Após a demolição da antiga construção, grandes desníveis foram expostos e, a partir de novo projeto, receberam jardineiras de pedra que possibilitaram o plantio de vegetação de grande porte de forma a possibilitar um ajuste de escala e propiciar conforto visual. No centro plantei uma mangueira e a ideia era usar esta área como um estacionamento. Um trabalho também consistente foi feito junto à rua para poder receber as árvores que dariam privacidade também neste trecho. Na divisa entre os dois terrenos toda a vegetação foi implantada a fim de garantir a privacidade da casa, do novo patio de estacionamento e da nova guarita.

 

Quando do centenário de Burle Marx, no ano de 2009, houve um movimento para ser tombado o jardim da casa como um jardim de Burle Marx. Fui chamada nessa ocasião por representantes da Fundação Roberto Marinho e sugeri a presença de Haruyoshi Ono, sócio de Burle Marx que eu conhecia de longa data. Levei os projetos que havia desenvolvido e executado nesses anos. Há muito tempo Haru não ia à casa do Cosme Velho. Após uma caminhada pelo jardim, e vendo os meus desenhos, disse que não havia sentido em reivindicar esta autoria considerando que o que restava do projeto original de Burle Marx era muito pouco: o espelho d'água na face leste do terreno, onde habitavam os flamingos, e algumas plantas do seu entorno.

Assim é com os jardins: são mutáveis e vulneráveis. Às vezes faz sentido o seu restauro, outras vezes não, por inúmeras razões, e há que se admitir e aceitar este desígnio da natureza.

Projeto e execução: Isabel Duprat Arquitetura Paisagística        1995 a 2000