JARDINS DO COMPLEXO CULTURAL LUZ

 

Texto: Isabel Duprat

Desenhos: Luiz Paulo Baravelli

 

Tento sempre acreditar que vai dar certo, para manter a expectativa motivadora do desenho, mas em se tratando de um projeto público em nosso país, sinto sempre um sabor agridoce ameaçando, por diversas razões, e quase sempre as mesmas, todo um empenho, energia e trabalho de pessoas comprometidas em fazer um bom projeto. Esta é a história de mais um projeto realizado, mas não executado por razões que excedem a nossa compreensão. 

 

Uma equipe de extremo profissionalismo, cada um na sua especialidade, dedicando o seu trabalho para conferir à cidade de São Paulo um projeto de excelente qualidade: um espaço aberto a toda a população, com salas de aula para música e dança, ensaios, e também salas de concerto. Além da evidente importância cultural, esse espaço contribuiria com a revitalização da área central da cidade.

 

A possibilidade de trabalhar com arquitetos que pensam e agem diferente, métodos e raciocínios, cultura, visões de mundo diversas, é um exercício contumaz que traz à tona e exacerba nossas percepções. Um olhar externo nos nutre com pontos de vista instigantes a viciada e acachapada realidade que nos amordaça, quer pela vida urbana dividida e violenta, que mostra suas entranhas na área central da cidade, quer porque já estabelecemos de antemão limites para nossas perspectivas.

 

Basel é uma cidade daquelas que aparece no nosso imaginário como a cidade perfeita. É alegre, um centro histórico preservado com construções medievais, muita arte e uma indústria de ponta. O rio Reno limpo, por que não, cortando a parte nova e a parte velha e no verão se transformando num grande espaço de lazer aquático.

 

O escritório Herzog & de Meuron é em uma destas casas à beira do rio, com espaços de muita produção mundo afora, mundos diferentes. O projeto do Complexo Cultural Luz tinha uma sala só para ele, e nosso projeto de paisagismo estava lá na parede, parte de um grande conjunto que mostrava a certeza de que o óbvio, mas não tão óbvio assim, todos ali estavam empenhados em exercer da melhor forma a sua parte, cujo objetivo era projetar um lugar público para estudar música, estudar dança, ouvir música, ver dança. Apresentei em minha primeira visita a essa cidade o nosso projeto a Pierre e Jacques. Muito frio na rua, estávamos em janeiro, o que deixava tudo mais intenso. A conversa foi boa, mas explicar o projeto e porque meu espelho d’água era quadrado e não redondo foi difícil. Não sabia explicar. Ficou quadrado porque eu tinha certeza que era melhor assim, e assim ficou. Tudo muito simples, de certa forma. Mais do que se poderia esperar. E por isso mesmo, muito bom e muito prazeroso.

 

O projeto de arquitetura se desenvolveu em lajes entrelaçadas como fitas abrindo alguns vazios por onde se veria o céu. O paisagismo cria um solo em um único pavimento no nível térreo, logo acima do subsolo construído. Neste solo com aproximadamente três mil metros quadrados, o reino vegetal em seus gêneros e espécies se enraíza e convive com a água, o vento e a luz zenital.

 

A massa vegetal, um recorte com espécies da mata atlântica, é composta de cento e oitenta espécimes, entre árvores e palmeiras, variando em altura de dois metros e meio a doze metros, e mais algumas dezenas de plantas para forração, desde rasteiras até um metro e meio de altura, epífitas e trepadeiras, conquistando as diferentes alturas proporcionadas pelas lâminas de concreto.

O jardim se entrelaça à arquitetura, surgindo nos diferentes níveis e espaços proporcionados pelas aberturas.

 

Os estares grandes e pequenos e os caminhos são de pedra basalto cinza apicoada.

 

Cinco zonas quadradas, com áreas variáveis são destacadas para serem palco para a luz vertical e chuva, que entram pelas visadas ao céu na parte mais alta da arquitetura, e enchem de luz as áreas do entorno. Achei que a luz natural incidindo sobre a água seria melhor aproveitada para o entorno refletindo e espraiando os raios de luz, do que se fosse utilizada pelas árvores mais altas, que iriam bloquear a entrada do sol.

 

Soa como se o edifício tivesse sido construído em espaços remanescentes de uma mata.

 

A praça existente que liga a Estação Júlio Prestes ao Complexo Luz faria a integração dos dois espaços culturais.

 

As calçadas que envolvem a quadra do centro cultural foram tratadas como parte do conjunto do edifício, e a proteção que se fazia indispensável para preservação da construção, tentamos torná-la mais amigável através de diferenças de nível ao invés de cercas e grades.

 

Trazendo à memória este processo de trabalho, e todo o conjunto de desenhos realizados pela grande equipe que a ele se dedicou, fica uma sensação melancólica e pessimista de que dificilmente vamos evoluir para termos uma cidade que nos fará bem.

 Luz se prepara para o projeto 343.  Projeto Design 385 mar 2012    

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