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  • Isabel Duprat

Árvores Nativas em Extinção


Que país é este, que empresta o nome de uma árvore e rouba-lhe a vida?

Um sobrevoo pela floresta Amazônica dá-nos um alento momentâneo de deslumbramento, com tamanha extensão de massa verde, reinando poderosa lá embaixo, entrecortada por serpentes de água. Toda essa segura placidez, no entanto, esconde uma vulnerabilidade dolorida, que a cada dia ganha manchas desérticas e grandes áreas de carvão. Sob a tutela do machado, das armas, motosserras e máquinas cada vez mais potentes, especializadas em destruir em horas milênios de evolução; num verdadeiro campo de batalha e interesses, vão-se perdendo infinitas espécies nativas, que a cultura imediatista e sem ética do nosso povo não se ocupa em preservar. Não há mais tempo em atribuir nossa inércia e descaso com as coisas da nossa terra à atitude extrativista de nossos colonizadores e ao desconhecimento cientifico das espécies, suas formas de reprodução e de extração inteligente. Nossa flora foi amplamente estudada com paixão no século 19 por Martins, que lhe dedicou a vida e mostrou-nos toda a diversidade botânica de nossa flora e naquela época alertava para o fato de o Jardim Botânico do Rio de Janeiro, inicialmente, produzir plantas exóticas em detrimento de nossas plantas. Glaziou, um francês apaixonado pelos trópicos, introduziu diversas espécies nativas, como a bela sapucaia, em seus projetos, em contraponto ao gosto da época, que valorizava o exotismo da Coroa. Burle Marx com seu trabalho aproximou-nos de nossas matas, aumentando de forma considerável o repertório de espécies nativas para uso nos jardins e ensinou-nos as diferentes formas de associações dessas plantas. A universidade coloca anualmente sua produção cientifica à nossa disposição. A Floresta da Tijuca é testemunho de uma corajosa e bem-sucedida atitude preservacionista, realizada no século passado, a qual, em toda a sua plenitude, está nos dizendo que vale a pena.

É com tristeza, porém, que ao se consultar as listas oficiais dos órgãos que catalogam as espécies em extinção, verifica-se que, entre tantas espécies, se encontrem todas as arvores que fizeram a história do nosso ciclo econômico. Divididas em categorias que vão de rara, em perigo e vulnerável, estão piscando o sinal de alerta, dizendo-nos que têm pouco tempo de vida.

Num mundo em que o tempo é moeda de alto valor, onde inúmeros investimentos são feitos para otimizá-lo, encurtando distâncias e acelerando atitudes e decisões, há de se estabelecer uma relação diferente com o tempo diante de uma árvore. Ela tem seu tempo e pouco podemos fazer para acelerá-lo. Dez anos pode ser pouco tempo para uma árvore. Respeitar esse tempo é preservar a identidade com a nossa terra. Plantá-la é uma atitude de respeito para com as futuras gerações.

As espécies ameaçadas

As árvores abaixo, outrora abundantes nas matas brasileiras, estão divididas em raras, em perigo e vulneráveis.

Castanheira-do-pará: Bertolletia excelsea – scrythidacae

Com toda a sua majestade do alto de 50 metros, esta bela árvore é uma das mais nobres da Floresta Amazônica, constituindo-se em uma das principais fontes de recursos da região pelas suas sementes: as castanhas-do-pará.

Seu caule cilíndrico, liso e sem ramificações até a copa, atinge 2 metros de diâmetro da base. Suas flores, que ocorrem de novembro a fevereiro, constituídas por seis pétalas brancas, são de rara beleza e perfume agradável. Sua copa é ampla e espalhada, formada por folhas simples de 25 a 35 centímetros de comprimento. É planta característica de toda a Amazônia, incluindo os Estados de Rondônia, acre, Amazonas, Pará e norte de Goiás e Mato Grosso, aparecendo em locais de terra firme e em formações de grandes grupos, os castanhais.

Seus frutos de 500g a 1,5kg contêm até 24 sementes. Com crescimento moroso, frutifica aos 8 anos, atingindo aos 12 produção normal de até 500 quilos de frutos por ano, quando adultos. A despeito de seu grande valor econômico, a castanheira frequentemente é abatida para uso da madeira na construção civil e naval. Seu crescimento é lento e tem boa adaptação no Rio e em São Paulo.

Pinheiro-do-paraná: Araucaria angustifolia – auracariaceae

Uma das espécies de coníferas nativas do Brasil formava, até a década de 30, grandes áreas de bosques, estendendo-se da Serra da Bocaina até o Rio Grande do Sul e fronteiras com o Paraguai. Supõe-se que a zona de dispersão desta espécie tenha sido Minas Gerais, de onde partiu para o Sul, levada pelos rios Grande e Paraná. Ocorrendo normalmente em grupos homogêneos possibilitando a formação de espécies de menor porte em seu sub-bosque.

De forma escultural e imponente, atinge até 50 metros com sua copa em forma de taça, adquirida pela perda dos ramos inferiores que, quando jovem, lhe confere forma cônica. É arvore de crescimento lento. Nos meses de abril e junho, sobrevém a maturação dos frutos que dão origem a sementes, o nosso pinhão das festas de São João.

Sua madeira amarelada é própria para pisos, moveis, forros e ripas, e sua fibra é considerada uma das mais longas e melhores para a fabricação do papel, superando os pinheiros americanos e europeus. De sua resina obtém-se a terebintina. As sementes são produzidas pela árvore fêmea e sua coleta deve ser feita no chão, depois de sua queda.

Mogno brasileiro, aguano: Swietenia macrophylla – meliaceae

Natural da região amazônica, nas áreas de floresta de terra firme argilosa, especialmente no sul do Pará. O mogno é uma das espécies de lei, internacionalmente conhecida pela qualidade de sua madeira. Atingindo de 25 a 30 metros de altura e tronco de 50 a 80 centímetros de diâmetro, com fuste alto e ereto tem casca pardo-avermelhada grossa com grandes sulcos. Sua copa é estreita e com densa folhagem. Após a renovação de suas folhas, entre agosto e setembro, surgem pequenas flores perfumadas de cor creme.

Sua madeira é pardo-amarelada, passando a pardo-avermelhada com finas riscas e superfície brilhante, de reflexos dourados e lisa. Apresentando, no entanto, variações de acordo com a natureza de seu habitat. É utilizada na fabricação de móveis, esquadrias, guarnições, assoalhos, etc.

Por seu potencial ornamental é bastante apropriado ao uso em parques e grandes jardins, com boa adaptação na região Centro-Sul do Brasil. A coleta de sementes deve ser feita diretamente da arvore, no início da abertura espontânea dos frutos. Antes do planto devem ser levadas ao sol para completa liberação de sementes. A planta oferece bom e rápido desenvolvimento, atingindo até 4 metros de altura em 2 anos.

Canela-sassafrásOcotea pretiosa – laureaceae

Árvore grande e elegante, atinge entre 15 e 25 metros de altura, com tronco de 0,50m a 0,70m de diâmetro. Quando cresce, isoladamente, seu tronco é baixo com no máximo 10 metros de altura e sua copa densa adquire forma arredondada, com até 10 metros de diâmetro, propiciando boa sombra. Característica do sul do Brasil, estende-se pela floresta pluvial até o sul da Bahia, ocorrendo com frequência na Serra da Mantiqueira em Minas e São Paulo e nas matas de pinheiros do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

De todas as partes da árvore extrai-se o óleo essencial sapol com odor de canela, bastante utilizado na indústria de perfumaria e desinfetantes. Sua madeira é amarela-esverdeada, as vezes pardo-escura, com veios e manchas mais escuras; é própria para mobiliário, construção civil e naval. Para se proceder à semeadura, devem ser coletados seus frutos, diretamente da árvore, quando começarem a escurecer, e plantá-los desta forma imediatamente após a colheita. É planta de crescimento lento com boa vocação para plantio urbano.

Jacarandá-da-bahiaDalbergia nigra – leguminosae

Ocorrendo na floresta pluvial atlântica, nos Estados de Espirito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo e sul da Bahia, o jacarandá, ou cabreúva ou ainda pau-santo, como é chamado na Europa pela sua versatilidade, é importante madeira-de-lei. Esta madeira, rija e de cor quase negra, começa a ser utilizada com intensidade no Império, é empregada na fabricação de móveis e acabamentos da construção civil, e ficou internacionalmente conhecida como excelente matéria-prima na fabricação de pianos. Em seu habitat pode atingir até 20 metros, e seu tronco de casca fina e estrias retangulares atinge de 40 a 80 centímetros de diâmetro e copa aberta e folhagem transparente, exibe pequenos cachos de flores violáceas e perfumadas na primavera e verão. É uma planta rustica, de desenvolvimento moderado. É adequado para o plantio em áreas degradadas, surgindo até mesmo em áreas de cortes de barrancos.

A transparência de sua copa esparramada e fina confere-lhe excelente uso ornamental. O processo reprodutivo é feito mediante colheita dos frutos no início da queda espontânea.

Sacambu ou jacarandá-do-litoral, jacarandá-rosaPlatymiscuim floribundum – leguminosae papilionoideae

Árvore nativa de nossa mata pluvial atlântica é muito pouco frequente, ocorrendo nas planícies aluviais, várzeas úmidas e início das encostas do Rio de Janeiro até Santa Catarina. Produzindo poucas sementes e graças a sua baixa frequência e crescimento lento, é planta de fácil extinção. Com altura de 10 a 20 metros e tronco reto de 40 a 50 centímetros de diâmetro, é árvore bastante ornamental, em razão de sua intensa floração de cor amarela, podendo ser utilizada com sucesso no paisagismo. A madeira é utilizada na construção civil e detalhes de marcenaria. Os frutos podem ser colhidos diretamente da árvore ou serem recolhidos do chão após a queda, devendo ser plantados diretamente na terra.

Pau-brasilCaesalpinia echinata – leguminosae

Abundante outrora em toda a costa, especialmente do Norte ao Centro, sua madeira cor de brasa provocou nos tempos da Colônia, verdadeira luta entre os exploradores. É de crescimento lento, tronco esparsamente revestido por espinhos e sua casca, que se desprende irregularmente, mostra uma superfície de cor marrom-avermelhada. O pau-brasil é árvore de 10 metros de altura, podendo chegar a 30 metros em condições especiais. Para se proceder à semeadura, deve ser feito coleta das vagens diretamente da árvore, quando no início da abertura espontânea, devendo ser levada ao sol, para abertura completa e liberação das sementes.

Jequitibá-rosaCarianiana legalis – leritidáceas

Ocorrendo nas florestas pluviais, do sul da Bahia até o Rio Grande do Sul e nas matas da galeria, é uma das maiores árvores da flora brasileira, com 40 metros de altura e uma de dois metros de diâmetro. O jequitibá fornece madeira-de-lei vermelho rosada, própria para construção civil, podendo substituir eventualmente o cedro. É recomendado para florestamento em razão de seu crescimento relativamente rápido, atingindo 4 metros em 3 anos.

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