Amanhecer num grande mercado

04.06.2015

Quando o despertador toca na madrugada, sinalizando que é hora de ir ao Ceasa, já sinto o inverno gelado lá fora, noite ainda. E penso como não imaginava que a minha opção precoce de ser paisagista vinha com a tarefa compulsória de dupla jornada na semana, terças e sextas, neste sempre horário indiscreto.

 

Pego o carro sonolenta, atravesso as ruas completamente desertas, no princípio do amanhecer, em estado de alerta. É torcer para o carro não enguiçar, ou o pneu furar, numa hora dessas. De repente, chego num mundo colorido e animado, em plena atividade. Tudo já está acontecendo, e tenho a estranha e repetida sensação de que estou atrasada. Mudo rapidamente de canal: do recém-despertar à passagem para a atividade máxima tudo é imediato. Não há tempo a perder. Em instantes, você está envolvido pelo objetivo de buscar as melhores plantas e flores, descobrir as novidades, conferir as encomendas, muitas vezes com retorno a desejar, o que o obriga a reparar o problema correndo atrás de alternativas. Tudo tem de ser rápido e eficiente. Parada para um chocolate quente, no carrinho da Maria, e continuar a corrida. Alguns quilômetros a percorrer nos quase 500 metros de pavilhão e suas extensões, que abrigam 950 boxes de produtores e revendedores. Tudo feito, passar rapidamente a lista para o João, meu carregador há 10 anos, que integra um batalhão de mais de 400 carregadores, com seus informes amarelos e carrinhos a correrem desenfreados, na hora do apito que libera a retirada da mercadoria, com urgência para chegar ao destino.

 

Encontra-se muita gente nesse trajeto acelerado. Se são amigos da área, ambos sabemos que a conversa vai ser rápida. É o descompasso entre quem veio a trabalho e quem veio a passeio. Há um aspecto fascinante do tempo nesta profissão. As flores vão acontecer naquele dia, tão efêmeras, e talvez marquem para sempre uma emoção. Os jardins, no entanto, levam anos para amadurecer. O tempo e a velocidade de fazer e o tempo acontecer são tão distantes.

 

É tudo muito bonito. A rotina deste trabalho não impede que você mesmo se emocione com pilhas de maços de rosas, botões gigantes vindos da Colômbia, íris amarelas, brancas e rosas, delfinos azuis, tulipas amarelas, laranjas, vermelhas, aquelas mesmas das pinturas de David Hockney, e que nos deliciam na primavera londrina e quando termina o inverno na Park Avenue.

 

A nossa aparente uniformidade climática e contestada ao longo do ano pelas flores da estação, desabrochando em todas as cores. O verão traz a amarílis, a doce angélica, o copo-de-leite, as bolas de hortênsias cor-de-rosa e os alegres girassóis. O outono, as boungainvilles fosforescentes. O inverno, as esplendidas azaleias, camélias, os buques de noiva, as sedosas papoulas, as prímulas, os cachos roxos das glicínias. A primavera é inebriada pelas gardênias e pelas fresias, traz os ciclamens elegantes e os agapantos azuis.


O grande segredo é saber comprar, o quê e de quem. Cada um na sua especialidade: flores de corte, flores de vaso, árvores, forrações, arbustos, vasos e acessórios, ferramentas. Não há controle de qualidade neste mercado. Bons e maus produtores e fornecedores se misturam. Corretos e nem tanto estão ali lado a lado. A seleção é feita pelos compradores. Ao longo dos anos se estabelece um código ético de relações de bom atendimento e de compra fiel. As duas partes sabem que precisam cultivar esta relação.

 

É bom contar até hoje com a Floricultura Campineira, que forneceu as plantas para o meu primeiro projeto, há 19 anos, e continua atendendo-me com competência e profissionalismo.

 

Para se ter flores o ano todo, não é fácil. Tudo corre muito bem nas épocas em que a produção é grande e o consumo nem tanto. O grande teste é conseguir boas e belas flores na entressafra. Lembro dos meus primeiros dias de Ceasa quando quase tive de implorar ao Luiz Nishikawa que vendesse seus lindos bicos-de-papagaio para minha loja. A produção já estava comprometida com os antigos clientes. Fui aceita. Uma vez na sua lista, os vasos estavam garantidos toda semana. Senti por ele, um ano em que o fungo atacou sua produção e não houve quase flores vermelhas para enfeitar o nosso Natal. São coisas de quem trabalha no ramo. Há de se lidar com a geada, a seca, muita chuva, pragas e doenças diversas. Não é fácil sair bem, com todas essas adversidades.

 

Na sua grande maioria, os produtores são japoneses que, com a família envolvida na produção ou na venda, se deslocam de Suzano, Registro, Atibaia, Iguape, Jaguariúna e Campinas com seus caminhões lotados. Chegam à noite, descarregam a mercadoria e aguardam os compradores. Uns cochilam nos caminhões, outros de vigília se aquecem tomando café e comendo amendoim. Amendoim às 5 horas da manhã? Faz parte do cerimonial. Em todo caminhão tem um saquinho, daqueles que a gente tem de quebrar a casca. Já me peguei comendo muitos deles enquanto conversava e fazia encomendas. De repente, há todo o tempo do mundo para se conseguir exatamente a planta que estamos procurando, o que nem sempre é possível.

 

Temos ainda o que aprender, investir e produzir especialmente no que se refere ao estado fitossanitário das mudas e as técnicas de transplantes. O consumidor tem também muito a conhecer e exigir.

 

Felizmente, estamos podendo acompanhar alguns progressos. A reprodução por meristemas e importação de pequenas mudas da Holanda e Estados Unidos estão possibilizando a produção de plantas idênticas e perfeitas. A Holambra, por meio desse processo, colocou a beleza tropical das bromélias em quantidade para atender a uma grande demanda. Trouxe também uma variedade enorme de flores de corte e bulbos, introduzindo os lírios, narcisos, jacintos e tulipas, estabelecendo uma liderança no mercado e servindo de reguladores de preço, quase sempre para cima, é verdade.
Com igual técnica, a Flora Araki colocou no mercado excelentes filodendros e diefenbachias.

 

O dia começa a clarear e, em meio ao sol nascente, os trabalhos vão se encerrando.

 

Há muita magia nesta atividade que mimetiza beleza e delicadeza com um trabalho árduo e pesado, que mobiliza grande número de pessoas empenhadas em transformar espaços e situações. Flores para casar, presentear, comemorar, namorar. Fazer um belo jardim, uma grande festa, um pequeno jantar. Um grande mercado acontece, para tornar lugares e momentos inesquecíveis.

 

Ele veio há tempo abraçar as flores

como personificação de todas as contradições nelas reveladas.

Sua suavidade, sua generosidade.

do livro:

Robert Mapplethorpe: Flowers

 

< Voltar

 

Please reload