Calma Paisagem

18.06.2015

No jardim japonês, a beleza é estática. Só a água corre, enquanto o homem se movimenta.

 

Nem só de pedras, areia, água, bambu e musgo é feito um jardim japonês. É preciso muito mais. O jardim japonês é um estado de espírito, um momento de intimidade com a natureza, um ato religioso. É a compreensão exata da escala do espaço a ser trabalhado. É o ângulo certo, a passada precisa, a forma natural, o rigor das linhas, a simplicidade do desenho.

 

O jardim japonês nasce da intenção de reproduzir a natureza, tal qual ela é: emoldurar um quadro dessa paisagem e transformá-la no paraíso. É captar a beleza, estática: tudo nesse jardim está parado. Só a água corre e o homem se movimenta. As rochas, pedras, areia, ilhas, lagos e cascatas emprestadas ao jardim são elementos que constituem essa paisagem. Isso nos faz crer que se a vegetação nativa do Japão fosse a flora tropical permeada por acidentes geográficos característicos, o jardim japonês seria um tranquilo jardim tropical. Num segundo momento, a natureza compreendida passa a ser reinterpretada. A azaleia podada faz a vez da montanha, a areia serpenteia com a água, a pedra é a ilha. Nos dois estágios, o jardim é elaborado sob o ponto de vista do homem, que vai passear por ele, contemplá-lo, usufruí-lo.

 

Comparo a experiência de percorrer um jardim japonês com a de se andar numa floresta: todos os nossos sentidos são ativados. Os diferentes materiais com suas texturas que nos transmitem sensações diferentes nos pés, o espaçamento confortável entre as pedras e o momento de parar, o som e o brilho da água, a surpresa que vai acontecer na próxima curva são estímulos que nos envolvem no caminhar. Estas características e artifícios fazem-nos sentir infinitamente bem. Estimulam-se e, no entanto, acalmam-nos. O jardim é feito para se estar nele. É uma experiência a ser vivida em 3D, na sequencia certa, como se enrola um sushi e se monta um ikebana.

 

Arriscaria dizer hoje, com tristeza, que o jardim moderno japonês endureceu com a vida. Está transformando a poesia que norteou a sua origem em produto hightech; enaltecendo um desejo absolutista de dominar a natureza.

 

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