Ramalhete

        Gosto de ter sempre flores perto de mim. Me dá um enorme prazer  olhar para elas.

São como ondas de luz colorida que me enchem de alegria. As flores estão na mesa de trabalho, na entrada da casa, na sala, na cozinha, na cabana da praia, no campo, no quarto do hotel, onde eu estiver. É uma forma de me aconchegar e de me sentir bem. Estar próxima das flores daquele lugar me dá uma sensação de intimidade com o território onde pisamos pela primeira vez, ou de uma agradável cumplicidade na rotina de lugares para onde sempre voltamos.

 

        Minha mãe tinha uma grande paixão por flores e plantas e esta foi minha primeira conexão com este universo fascinante. Quando pequena, por vezes íamos a uma pequena floricultura próxima ao cemitério São Paulo onde eventualmente se encontrava ervilha de cheiro, que depois  comecei a semear  junto ao muro de divisa de casa. Em ocasiões especiais íamos juntas a uma chácara de chão de terra úmida e escura numa travessa da avenida Santo Amaro, onde hoje se esparrama a Vila Olímpia, comprar flores que se apresentavam nos canteiros semeados por uma senhora, que as cortava na hora e as embrulhava em um jornal. Eram esporinhas, mosquitinhos, rosas, lupinos perfumados, o que tinha na estação. Na volta para casa o assunto era escolher o vaso que melhor receberia a colheita. E eu então tinha a deliciosa missão de arranjá-las para a festa.

 

       Lembrei-me destes momentos, quando percorrendo as estradas nas proximidades de Vila Angostura ao norte da Patagônia, desfrutava da profusão de lupinos de todas as cores invadindo as margens em tons de rosas ao roxos e azuis. Apesar de vir a saber que são invasoras, não consigo deixar de admirar a explosão de cores que nos inundava. O nosso quarto do hotel, à beira do rio Correntoso, verde transparente, foi enfeitado durante a nossa estadia, com um arranjo de flores secas que escolhemos num galpão à beira do  lago Nauel Huapi, onde eram  processadas. Eram naturalmente coloridas e nos inundavam de alegria.

 

       A violeta africana era uma novidade às voltas dos meus 10 anos de idade, e trocar folhas que se transformavam em mudas das diferentes espécies com a sister Consuelo, no colégio Pio XII onde estudava, fazia-me sentir uma naturalista, seja qual nome se daria a esta profissão àquela época. Quando conseguíamos uma espécie com flores dobradas, ou de duas cores numa só, era uma grande conquista.

 

       Na minha chácara de plantas, muitos anos mais tarde, no início dos anos oitenta, recém formada em arquitetura, na companhia de minha mãe por um tempo bem curtido, ainda convivíamos com a dificuldade de encontrar flores. O Ceasa já estava em marcha, mas era uma verdadeira batalha conseguir uma bonita caixa de hortênsias, uma bela poinsétia no natal. Cyclamem era uma raridade e boas prímulas, gloxínias e orquídeas não eram presas fáceis. Mas era uma aventura instigante criar belos arranjos com as flores que conseguíamos, plantá-las e embalá-las em cestas de bambu de todos os tamanhos que encomendávamos na Martim Francisco a cesteiros que confeccionavam balaios para a colheita de tomate. Mesclávamos hortênsias com avencas, chuvas de ouro com rendas portuguesas, embrulhávamos em papeis de seda coloridos das cores das flores, fitas de cetim do mesmo tom, e entregávamos os belos presentes, por vezes  eu mesma, meu pai ou com ajuda do meu irmão, estudante de medicina àquela época. As cestas de flores eram um grande sucesso e a moda dos papeis coloridos se espalhou pela cidade. Eram poucas floriculturas por aqui, poucas flores, um território novo a ser percorrido.

 

       Tive por um tempo um lugar muito especial, que ganhei de presente do meu marido quando ele morava no interior de São Paulo. Que brincadeira mais adorável: quinhentos metros quadrados para receber o que eu quisesse plantar. Os  fim de semana se passavam com enxada na mão, plantando de tudo e muito misturado, com direito a ter todas as flores que eu desejasse, esperar florescer e colher para fazer o vaso que naqueles preciosos dois dias iria enfeitar nosso terraço. Puro fascínio e diversão.

 

       Matisse dizia que, quando buscava flores para pintá-las, ia colhendo no jardim, colocando na curva do braço, uma após outra ao acaso. Depois, quando as arranjava em um vaso a sua maneira em seu atelier, se decepcionava. O buquê havia perdido o encanto ao ser substituído por um arranjo engessado. Permito-me discordar dele, tanto em razão das belas pinturas que fez, tendo esta flores como modelos vivos, como pelo fato de que em todo o processo de plantar, ou escolher as nativas no campo, colher a flor, escolher o vaso do tamanho, cor e forma, transparente ou opaco, arranjá-las e colocar no lugar para onde foi pensado estar, vejo um cerimonial do qual aprecio cada momento com seu encanto particular.

 

       No caminho da cabana que tínhamos no sul da Bahia, fazia parte da celebração da chegada parar na estrada de areia e colher algumas flores muito lindas e valentes que se ofereciam nas entranhas do solo duro e seco no topo das falésias. Ao chegar, após tomar a benção da água de côco, já com o pé na areia, começava o preparo do vaso, com a trilha sonora da água do mar lambendo os corais ao fundo. Com o tempo, Glorinha, adorável mulher que cuidava da nossa casa, nos surpreendia com arranjos que fazia para nos receber, misturando as nativas com hibiscos coloridos, dando sinais de que estava pegando gosto por este fazer.

 

(Arranjos de casa

Os arranjos são como jardins. Flores que planto para os clientes  fazerem os vasos))

 

Nestes últimos anos, no nosso campo longe daqui, experimento as instigantes diferenças pontuadas das estações repetindo a colheita à beira da estrada das flores de inúmeros amarelos, miúdas e nem tanto, brancos e azuis, capins com inflorescências e formas em todos  os tons, dos beges aos bordôs, sempre deixando muitas no pé para que suas sementes se espalhem, e que deliciosa surpresa encontrá-las no mesmo lugar no ano seguinte. Grande prazer me dá também a colheita das rosas do roseiral que criamos perto da casa de pedra, e juntá-las coloridas ou de uma cor só. Por que só algumas são perfumadas? O ramalhete sobre a grande mesa de madeira, à sombra da parreira esperando por ser transformado, e o desígnio de estar  ali com esta doce tarefa pela frente, são processos que quero sempre cultivar para o bem da minha alma e das pessoas ao meu lado.

 

Nos jardins para os meus clientes  dou a lês a oportunidade de que façam seus próprios ramalhetes.

 

O processo do jardim em muito se assemelha a este processo

 

Ramalhete... usar a palavra no fim ..

 

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