A chuva

A chuva é uma dádiva que nutre o solo, que mantém a Natureza viva, que faz frutificar. Não falo das tempestades episódicas que são violentas e assustam, como descreve Jean-Marie Gustave Le Clézio em O Africano: ”... temporais como nunca vi nem sequer em sonho, o negrume do céu zebrado pelos raios, o vento que envergava as grandes árvores...” Falo da chuva constante que nos lava a alma enquanto a sentimos penetrar na terra, transformando-se em alimento. A chuva que sacia a sede, que alimenta as nascentes, enche os lagos, os rios, que dá vida às florestas e faz o deserto florescer, a abençoada forma da água.


Dois grandes poetas discorrem com extremo lirismo e simplicidade sobre a chuva em dois belos escritos. Francis Ponge em seu livro O Partido das Coisas descreve os sons da água da chuva ouvidos em um pátio, escorrendo sobre diferentes superfícies, caminhos, volumes, alturas. A sutileza ou a força de cada movimento sonoro. Tudo o que se precisa saber para o uso da água em um projeto de paisagismo.



CHUVA
 
 A chuva, no pátio em que a olho cair, desce em andamentos muito diversos. No centro, é uma fina cortina (ou rede) descontínua, uma queda implacável mas relativamente lenta de gotas provavelmente bastante leves, uma precipitação sempiterna sem vigor, uma fração intensa do meteoro puro. A pouca distância das paredes da direita e da esquerda caem com mais ruído gotas mais pesadas, individuadas. Aqui parecem do tamanho de um grão de trigo, lá de uma ervilha, adiante quase de uma bola de gude. Sobre o rebordo, sobre o parapeito da janela a chuva corre horizontalmente ao passo que na face inferior dos mesmos obstáculos ela se suspende em balas convexas. Seguindo toda a superfície de um pequeno teto de zinco abarcado pelo olhar, ela corre em camada muito fina, ondeada por causa de correntes muito variadas devido a imperceptíveis ondulações e bossas da cobertura. Da calha contígua onde escoa com a contenção de um riacho fundo sem grande declive, cai de repente em um filete perfeitamente vertical, grosseiramente entrançado, até o solo, onde se rompe e espirra em agulhetas brilhantes.
 Cada uma de suas formas tem um andamento particular: a cada uma corresponde um ruído particular. O todo vive com intensidade, como um mecanismo complicado, tão preciso quanto causal, como uma relojoaria cuja mola é o peso de uma dada massa de vapor em precipitação.
 O repique no solo dos filetes verticais, o gluglu das calhas, as minúsculas batidas de gongo se multiplicam e ressoam ao mesmo tempo em um concerto sem monotonia, não sem delicadeza.
 Quando a mola se distende, certas engrenagens por algum tempo continuam a funcionar, cada vez mais lentamente, depois toda a maquinaria pára. Então, se o sol reaparece, tudo logo se desfaz, o brilhante aparelho evapora: choveu.
                                 Francis Ponge


Em outros fragmentos, Cecilia Meireles canta a chuva fina no amanhecer da natureza, a água delicada, que nos acalma, ou a chuva cinzenta banhando a paisagem, ou a chuva lacrimejante no nosso coração.


Chuva na Montanha
 
Como caíram tantas águas,
 nublou-se o horizonte,
 nublou-se a floresta,
 nublou-se o vale.
E as plantas moveram-se azuis
 dentro da onda que as toldava.
 
Tudo se transformou em cristal fosco:
 as jaqueiras cansadas de frutos,
 as palmeiras de leque aberto,
 e as mangueiras com suas frondes
 de arredondadas nuvens negras superpostas.
 
O arco-íris saltou como serpente multicor
 nessa piscina de desenhos delicados.
 
 
Antieclesiaste
 
Chuva nas nuvens,
 flores nas arvores,
 lagrimas em nós.
 
Estação de chuva,
 estação de flores.
 O tempo inteiro para as lágrimas.
 Por isso estamos tão extenuados:
 todos os tempos foram de chorar.
 
...
 
Chuva fina,
 matutina,
 manselinho orvalho quase:
 névoa tênue sobre a selva,
 pela relva,
 desdobrada, etérea gaze.
 
Chuva fina,
 matutina,
 o pardal de úmidas penas,
 a folhagem e a formosa
 clara rosa,
 sonham que és seu sonho, apenas.
 
Chuva fina,
 matutina,
 pelo sol evaporada,
 como sonho pressentida
 e esquecida
 no clarão da madrugada.
 
Chuva fina,
 matutina:
 brilham flores, brilham asas
 brilham as telhas das casas
 em tuas águas velidas
 e em teu silêncio brunidas…
 
Chuva fina,
 matutina,
 que te foste a outras paragens.
 Invisível peregrina,
 clara operária divina,
 entre límpidas viagens.

                             Cecília Meireles


Com humor aguçado, o artista uruguaio Gervasio Troche nos surpreende com seus desenhos pinçados de seu livro Desenhos Invisíveis, nos carregando para o imaginário com sua chuva o homem e o guarda-chuva, em situações por vezes insólitas, ora divertidas ou tristes, solitárias ou embaraçosas, e sempre geniais.





Le Clézio, Jean-Marie Gustave. O Africano. Cosac & Naify, 2008

Meireles, Cecília. Poesia Completa. Editora Nova Fronteira, 1997

Ponge, Francis. O partido das coisas. Editora Iluminuras,2000

Troche, Gervasio. Desenhos Invisíveis. Editora Lote 42, 2014


texto Isabel Duprat



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