O Jardineiro


There are a number of ways of laying out a Garden.

The best is by taking on a gardener.

Karel Capek




Sempre gostei de trabalhar a terra. Convivendo desde a infância com uma das terras mais férteis do mundo, a terra roxa, nos fins de semana e férias no sítio dos meus pais, me deliciava com a sensação, de plantar e ver crescer. O desejo de fazer jardim veio do interesse pelas plantas. Botânica e arquitetura completaram o movimento.


A atividade de jardineira veio então antes da de arquiteta paisagista e estas duas facetas do meu trabalho nunca se dissociaram.


O jardineiro é quem faz possível existir o jardim. O dia após dia, sob o sol, sob a chuva, a poeira e o sereno. O peso nas costas, a lama, a mão nas entranhas do solo, que é um prazer, na verdade, o arranhão do espinho, a unha encardida, o trabalho repetitivo, o carrinho de mão para cima e para baixo, o plantio compassado das forrações, o esforço físico no plantio das árvores. O jardineiro semeia, cuida e colhe. E vai pouco a pouco conhecendo a intimidade de todas as plantas e a convivência entre elas. Vai percebendo as nuances das estações e seus humores.


Ainda assim o jardineiro incompreensivelmente é invisível para a grande maioria das pessoas. No entanto é quem faz possível a permanência dos jardins. É triste a indiferença, e por vezes o desprezo que existe pelas pessoas que usam os braços no trabalho na terra, e por isso mesmo, os sujam desta terra, enlameiam seus sapatos, e molham suas roupas. É a nossa trágica herança da crueldade e preconceito perpetuados com o trabalho escravo, ainda presente, alardeando o desrespeito pela labuta na terra, a que muitos chamam com desdém de trabalho braçal. Nos esclarece muito versar sobre a origem das palavras e como a história e a sociedade altera o seu sentido, e como isto muitas vezes estigmatiza as pessoas. Tão cheia de significado é a palavra “humildade“ que deriva do latim humilitas, que se origina em húmus, terra fértil. Uma pessoa humilde na etimologia da palavra, é uma pessoa ligada à terra e, acrescento, enriquecida por todos os conhecimentos e vivências que ela nos traz.


Um bom jardim não pode ser feito por alguém que não desenvolveu a capacidade de conhecer e amar as coisas que crescem, diz Russel Page em seu livro The Education of a Gardner. Diz que não é o bastante aprender a teoria da história dos jardins, mas é necessário aprender a verdadeira natureza das plantas e das pedras, da água e do sol, tanto pelas mãos como pela cabeça. Acrescenta que raro é o profissional que agrega o conhecimento como jardineiro e landscaper, e esta é a ótica completa e desejada do conhecimento desta matéria. Concordo plenamente com este olhar sobre a nossa profissão. Como trabalhar com as formas da natureza sem conhecê-las? Sim, sensorialmente também.

Benvindo será o dia em que os protagonistas que fazem o corpo a corpo para realizar os jardins, os jardineiros, sejam incentivados, respeitados e admirados pelo seu abençoado trabalho cotidiano dignificando a natureza e nos trazendo para perto dela. Teríamos mais e melhores profissionais orgulhosos de seu fazer. Conquistaríamos mais e mais adeptos na preservação da nossa biosfera.




Se o planeta funciona como um todo vivo e dinâmico, limitado pelos confins da biosfera, então nos encontramos nas condições do jardim: um lugar autônomo e frágil, onde cada ajuste interfere no todo, e no todo de cada um dos seres presentes. Nos resta encontrar o jardineiro.

Gilles Clément





texto Isabel Duprat

fotografia Fernando Guerra


Setembro, 2020



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