Um bom lugar



Estar em contato com a natureza, se for uma experiência plena, nem sempre é agradável. Nem tudo é o paraíso. São vivências em que nos estranhamos ou nos surpreendemos com emoções desconcertantes com as quais não sabemos lidar, e muitas vezes, somos revelados na nossa pequenez confortável, confrontados com a impertinência dos movimentos naturais em quererem seguir o seu destino, ainda que não seja o que projetamos. Mas somos afetados por esta vivência, ou pelo menos seremos, se estivermos preparados e de peito aberto, para esta viagem.

Quantos de nós estamos prontos para buscar a sonhada praia deserta, e ficar algum tempo por lá, imersos em cenas magníficas, desprovidos de todo o arsenal de supérfluos urbanos?

A floresta tropical é úmida e quente demais, insetos de todos os tamanhos e espécies rumo ao ataque dos visitantes indesejados. Muitos animais, pássaros, e uma vegetação esplendorosa, em associações fantásticas. Árvores gigantes, entrelaçadas umas nas outras, movidas por instinto de sobrevivência, sustentando fauna e flora aquáticas, acolhida pelas infinitas bromélias em suas copas. Palmeiras, frutos, flores grandes e pequenas, um mundo de descobertas por fazer, muitas já feitas, por homens da floresta e por aqueles que se aventuram na nobre missão de decifrá-la e respeitá-la.

Os desertos de areia, de sal e minerais, com vulcões em ebulição interior e altitudes extremas, nos causam desconforto, mas nos oferecem beleza pura, e instigam a nos fartarmos de tantas formas e cores inesperadas. Poucas plantas e animais vencedores, povos quase heroicos, traçando seu rumo nesta perspectiva de coabitar um lugar inóspito.

As grandes geleiras que emanam um azul profundo não nos querem por perto, sobretudo dos estragos que fazemos ao desmoroná-las de calor. Devemos estar gratos se um dia pudermos sentir a sensação única de admirá-las frente a frente, fazendo uma reverência.

A mata atlântica, quando se esparrama na praia a beira do rio é tão bela, e em seu interior proliferam tapetes de plantas delicadas, de cores e tons tão variados quanto suas formas. Árvores como verdadeiros totens erguendo orquídeas de todos os tamanhos, com inflorescências magníficas, e tantas outras epífitas. Mas seu relevo escarpado e seu solo instável, a grande umidade e o vento levantando o mar salgado, não nos querem ali. Há que ser extremamente delicado para conviver neste lugar, a começar com a construção que ali será erguida, e para estar ali não se pode impor nosso estereótipo do bem viver, tão agressivo, e tão desconforme com este ambiente.

Talvez não à toa o homem tenha surgido na savana, a despeito das grandes feras que já reinavam. É vasto, imenso, mas de certa forma habitável pelo homem, sem que seu impulso destruidor de autopreservação tenha que destrui-la.

Talvez a maior dificuldade hoje seja entender a diferença abissal entre estar em contato com a natureza e respeitá-la, de fato tentar, ou mesmo querer compreendê-la. A ideia idílica da Natureza reduz nosso viver natural a consumi-la, de forma abrasiva e predatória. Como estamos tão distantes de proteger estes ecossistemas mundo afora, apesar da interconectividade e de muito saber à disposição. Conhecê-los, admira lós, nos emocionar, sem querer dominá-los e destrui-los.

Para conviver com a Natureza, há que se ter humildade. E sobretudo saber observá-la sempre; seus movimentos, seu funcionamento, seus humores, a beleza, o processo. Temos tanto a aprender nestas vivências.

Penso que fazer jardins é criar um lugar que nos dê paz e alegria de alma, e que nos prepare para este viver mais próximo das coisas da Natureza.

Um bom lugar, que nos faça melhor, e que nos dê a dimensão e a referência do nosso espaço no mundo, e resgate a nossa essência já tão mascarada.

E como são estes lugares que nos fazem sentir bem? E por que nos fazem sentir bem? Querer estar, querer voltar? Recortes da Natureza, nas suas versões mais amenas?

A natureza não aceita imitações, fragmentações e tampouco nos cabe ter esta pretensão.


São lugares grandes, pequenos, cheios, vazios? Um banco e uma árvore, são o bastante? Quando? No verão, no inverno, ou no outono e primavera, as sensações são tão diferentes! Mais ainda num clima tropical ou temperado. Luz filtrada sob a copa? Sol ou sombra, quando? Linha reta ou curva? Por que optamos por uma ou outra para desenhar este ou aquele lugar? Ou as duas? O vento, o ar parado, as estações do ano, e suas mutações. A vegetação densa, esparsa, flores, frutos, quais espécies e por quê? A água, e todos os seus sons e movimentos. O silêncio, o entorno. Este é o exercício do nosso trabalho, encontrar a senha para decifrar estes mistérios, e tantos outros, a cada estação, e criar um bom lugar.




texto Isabel Duprat




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