Verbena

As flores do campo são fascinantes pela sua delicadeza. O ato de colhê-las no seu habitat, se embrenhando no mato para chegar até elas, é como receber vida, energia vital da natureza, um presente que nos traz humanidade. Para mim estes momentos são um ritual que vivencio silenciosamente. Saio para caminhar sempre com uma boa tesoura à mão, seja a pé ou de carro. Nunca se sabe o que vamos encontrar. Volto sempre aos lugares da floração passada, e como é bom encontrá-las novamente. Algumas espécies nunca se espalham. Ficam restritas a pequenas moitas em diferentes pontos, acendendo as suas cores em meio às gramíneas. Estas eu não colho, com receio que desapareçam, e fico à espera de que um dia se multipliquem. Tento espalhar suas sementes, mas nem sempre sou bem-sucedida. Parecem não querer sair dos seus lugares. Algumas somem no inverno, reaparecem na primavera, outras no verão em profusão, outras dão o seu show no outono. Ao longo do ano eu as revisito. Muitas vezes temos lindas surpresas ao encontrar um jardim natural, como aconteceu este verão, junto à estrada de terra próximo a um riacho.


Uma profusão de Verbena bonarensis, bolas de flor de um roxo profundo com talos de mais de um metro e meio de altura muito fortes. Nunca as tinha visto ali. Que beleza de colorido, com as cenouras silvestres (Daucus carotas) com flores brancas dispostas em pequenos buques se alternando em maciços entre taboas eretas e aveludadas. A tesoura vai ser útil agora. Muito cuidado onde piso para não cruzar com uma cobra, sim elas podem estar ali, e nós somos os intrusos, cair em um buraco ou macetar alguma moita. Muita delicadeza para não macular a planta esgarçando o galho no momento do corte da flor e para não a ferir. Colho apenas algumas, somente aquelas que vão caber no vaso escolhido deixando muitas ao pé para que as sementes se formem e se propaguem, e os galhos rebrotem. À medida que vou abraçando as flores, vou as imaginando no pequeno jardim harmonizando umas às outras.


Mais adiante, crescendo em um barranco seco, muitos tufos de erva doce com flores amarelas exalam o perfume peculiar e penso que seriam muito bem-vindas.


Quando nos aproximamos destas pequenas flores silvestres na maioria das vezes somos surpreendidos pela sua complexidade estética. Gosto de pintar aquarelas destas flores e seus lugares. Faz com que se perceba todos os detalhes e suas belezas. Buscar o tom do roxo mais próximo, e do branco e suas tão inexplicáveis nuances. Entender sua estrutura.


Chegando em casa, as coloco sobre a mesa abaixo da parreira que este ano estava deslumbrante com seus os cachos verdes se oferecendo às pencas. Começo a arranjá-las no vaso que escolhi. Aprendi em uma aula de ikebana que fiz no Japão, que quando cortamos o talo da flor da altura certa devemos fazer isto dentro da água, para que ao fazer o corte não entre ar no talo. Esta prática vai fazer com que a flor dure mais tempo. Não à toa a palavra ikebana pode ser traduzida como a arte de conservar as plantas vivas em um recipiente com água. Assim, cada galho é cuidadosamente colocado no seu lugar, pensando no outro que virá em seguida. Às vezes não fica bom e recomeço, para dar-lhes toda a dignidade.





Por alguns dias teremos em nossa companhia a beleza destas flores juntas e harmônicas brilhando, cores, e isto vai nos dar alegria. Sabemos que não vão durar muito, que este arranjo é efêmero, mas todo este cerimonial que percorri nos revela de alguma forma. Esta experiência faz secretamente um bem enorme para o nosso espírito, mas não podemos trocar em palavras, devemos vivenciá-la.




texto e aquarelas Isabel Duprat

março de 2021


© Isabel Duprat