JARDIM BRASILEIRO

São Paulo, SP

 

 

Texto Isabel Duprat

Todo o projeto de uma casa que se abre para o exterior pressupõe que este exterior tenha uma qualidade especial.  A tão almejada integração interior /exterior se dá de fato na essência muito poucas vezes. A casa de vidro de Philip Johnson, a grande inspiração e origem de tudo, está em meio a um parque que lhe confere toda a ambiência. Mas e a casa urbana paulistana que se abre para os altos muros de divisa?

A criteriosa e sensível implantação da casa é crucial ponto de partida, este momento tantas vezes desprezado no projeto de arquitetura. Há que se aferir muito bem o dimensionamento dos recuos de forma a dar a sensação de profundidade necessária. É imprescindível selecionar as espécies vegetais que vão conspirar com esta experiência. Deve-se trabalhar os cheios e os vazios sem medo, assim como sombra e luz, para se sentir de fato envolvido pelo jardim de uma maneira amena e, sobretudo, vivenciá-lo integralmente com conforto e acolhimento, percebendo de verdade a Natureza. Isto não é tarefa fácil.

Com esta premissa, iniciou-se o percurso deste projeto de paisagismo em 2003. Com muitas rodadas de brainstorm, com a posterior alteração da equipe de projeto de arquitetura e o acréscimo do terreno vizinho ao longo do caminho, a conceituação primeira da arquitetura e do paisagismo sempre permaneceu intocável pela cliente arquiteta: a casa seria um prisma onde o espaço social e escritório estariam plenamente integrados e voltados ao jardim através de transparências e aberturas, e se deixaria envolver plenamente pela vegetação.

 

Para se ter a sensação por inteiro de estar dentro, cercado pelo jardim, loquei a casa a 12 metros de distância do muro junto à rua, rua, de forma a fazer deste lugar um jardim e não um canteiro, e a 40 cm acima do nível do terreno, para que o jardim frontal pudesse ser visto de uma perspectiva um pouco acima do nível do chão, através de uma passarela, conquistando ainda um jardim de cerca de 25 metros de profundidade até a divisa da face norte.

 

A obviedade seria deixar um enorme jardim atrás, o quintal do nosso imaginário, e um acanhado jardim na frente, o que não refletiria estas sensações desejadas. Esta distância da rua me reservou um espaço generoso para que uma história pudesse ser contada desde a calçada até a porta de entrada, um percurso para ser usufruído, como num cerimonial, um resguardo ou mesmo uma atmosfera que te prepara para a chegada à casa.

 

Sob o ponto de vista da sala de estar, uma profundidade foi proporcionada, as dimensões cuidadosamente afinadas nos fazem perceber a sensação de “lugar”.

 

Quis trazer para este jardim de entrada minha tradução das nossas matas. Não se imita mata, coisa dos deuses, mas quis trazer a sensação que experimentamos quando entramos mata adentro. É a sensação de estar num território desconhecido, e até mesmo adverso, que nos impõe respeito, provoca inquietação e instiga a curiosidade. O cheiro do frescor das plantas úmidas entranhadas umas às outras e misturadas em todas as suas cores e texturas: samambaias, selaginellas, calateas, begônias, filodendros atapetando o chão, ingás esparramados, delicados ipês do brejo, mongubas e esbeltos palmitos, tudo na escala da nossa fantasia. É uma mata que sentimos sem tocar, percebemos e avançamos como que por mágica. A contribuição do projeto de paisagismo de se colocar a casa 40 cm acima do nível do jardim foi determinante para que essa experiência fosse completa.

 

De tanto em tanto, somos agraciados com pequenos e rasos espelhos d’água, que fazem as vezes de poças expondo grandes pedras cobertas de musgo e oferecendo um suave som de água correndo. Ao caminhar pela passarela acima deste mosaico de texturas sobre este jardim úmido, exploramos estes recortes com o passo cuidadoso e atento.

 

Nas casas japonesas, as pedras do caminho de entrada te recebem sempre molhadas, em sinal de respeito. Vivi isto anos depois que fiz este jardim e compreendi então a delicadeza deste cerimonial.

 

Na face norte, plantamos grandes e belas árvores das nossas florestas, e um gramado foi oferecido para admirá-las. O acesso a este jardim se dá através de uma escada sólida que faz contraponto à fachada frontal onde a casa parece estar flutuando. Um jatobá, uma sapucaia e uma semanea plantadas já maduras conferem à casa um tempo de existência. A locação destas árvores e seu porte qualifica o espaço e a distância e a relação entre elas cria meandros e camadas até a divisa. Os altos muros foram revestidos por uma espessa camada formada por árvores verticais, arbustos e palmeiras dissimulando os limites. Um estar foi criado com o plantio de uma tão familiar jaboticabeira, recebendo chão de pedrisco e uma pequena fonte de pedra de delicado escorrer de água, inspirada em Noguchi.

 

Tirando partido de uma parede branca que contém a área de serviço, plantei um renque de paus mulatos organizados para permitir o reflexo da luz, desenhando um grande mural vertical que muda de cor na passagem das estações com troca das cascas de seus troncos roliços.

Área de intervenção 1200

Projeto e execução 2003 - 2009

Women Garden Designers 1900 to the Present. Taylor, Kristina. Garden Art Press, 2015

GA Houses 123.  A.d.a. Edita Global Architecture. Japão:  2011

GA Houses 103 - Project 2008. A.d.a. Edita Global Architecture. Japão: 2008

Trecho da série Casa Brasileira, da GNT Temp 2 - Ep 7 Exibido em 16 de Dez de 2011 Direção Alberto Renault Roteiro Baba Vacaro